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Dira Vieira
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Ritual

Meu corpo é feito de caixas, várias e pequeninas caixas de todas as cores. Mas não possuo armários, nem prateleiras, nem rótulos que possam dar nomes aos meus sentimentos. Tudo o que sinto e às vezes vêm de momento, existiu em algum outro lugar... E se eu acreditasse em vidas passadas, diria que as outras Madalenas, Clarices, Suzanas, Berenices, certamente teriam vivido esse coração que agora habita em mim. Mulheres são todas assim. Repletas de cores de todos os sons. E nunca executamos o amor não correspondido.
Minha cama é o último lugar onde o meu corpo se encontra. Não tenho endereço certo. O meu cansaço é o meu tempo quando. Perdi as contas de quantos rosários desfiei em memória. Sou meu próprio cárcere e o meu alvo de todas as guerras. Mas não me importo muito com isso.
Meu nome é Madalena e às vezes me inquieto com essa fala que nem sei mesmo se reflete em mim. Todo o dia, como quem escolhe uma roupa para sair, procuro nessas caixas, detalhes que adornem o meu dia. Pequenos e invisíveis detalhes. Pequenos e imperceptíveis desejos. Eu não consigo definir os sentimentos e nem ao menos entender os alheios. Tenho as tintas e outras estimas, mais o desejo de pintar, mesmo em dias de um cinza quase preto ainda me salta o peito e geme. Inútil, ainda não ousei descolorir os meus risos mornos nem minhas utopias. Ainda não perdi a cor lilás que me escrevia nem o resumo dos vôos que me partia em mil partes e cores.
Choro as meninas e as mulheres que matamos todos os dias. Choro as manhãs que não retocarão o batom de suas meninices. Choro as meninas clicadas nas digitais dos sonhos que serão apenas adornos de lápides abandonadas e empoeiradas.
Quando o dia é estrada eu aproveito para organizar as listas de todas as coisas dentro de minhas caixas. Não há roteiros, nem um manual de boas vindas. E tudo em mim se mistura e desencaixa. E quando a luz do ônibus apaga, a Madalena sorri para a paisagem escura lá de fora e finge dormir para a multidão. Nem olho para os lados, nem contemplo os vultos que ressonam ao largo, o que me interessa é que não refiro e o que me acorda é o que menos conta. Aproveito a estrada para as faxinas da alma e retiro o pó das minhas intensidades.
Desconstruo a imagem do espelho, recomponho outros detalhes e registro o invisível. Na verdade, eu não sou. Soletro apenas o impossível. O ontem, estampado na imagem reluz a sutileza do que não sei. Sou outras imagens e o que se move ao longe não se escreve em linhas tortas. Não se pode querer saber o que o outro pensa. É megalomania se achar sabedor de todos os mundos. O que é verdade tem outras versões. E a que menos importa é o que está exposto no outdoor. Sou outras falhas e ritos.
- o amor não se faz fatura vencida e nem se submete a bancos em greves. tudo é delírio e coma.
Eu tenho detalhes que ninguém lê e todas as vezes que pinto em face, no batom vermelho incandescente e na máscara do dia, revelo a nudez que desconcerta e cria. Minha memória é falha na ordem do dia. E a minha falta nunca foi tão ausente.
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Dira
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6:34 PM
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O Dia das Crianças
Imagem: Crianças cubanas, clique na foto para ir ao site que armazena essa imagem
Primeiro ato: Algumas coisas me incomodam nesse dia. E eu não consigo ficar sem dizer uma palavra. O dia das crianças, o dia dos professores, o dia disso, o dia daquilo. Compreendo todo o processo capitalista de instituir dias para esses lucros. Não me reporto a isso porque também não posso conter o capitalismo. Nem eu mesma consigo fugir dele, já que vivo quebrando cartões para não trocar a alegria de não dever pelo consumo enlouquecido.
Ainda estou ressacada pelas últimas eleições. Não me conformo do meu canditato não ter vencido. Mas sou movida 80% pela emoção e apenas 20% pela razão. E isso me entristece ver pessoas novas na política e já comprando votos. Isso me deixa estarrecida. O fenômeno da caradepau não só aconteceu na capital. O estado todo viu a campanha da compra do voto, com excessão de Pombal, onde a justiça realmente foi feita com a candidata e agora prefeita, Pollyana (que eu nem vou contar aqui porque é loooonga).
Segundo ato: Quando os meus filhos eram menores eu não podia comprar presentes no Natal, nem no dia das crianças. Hoje que eles não são mais crianças, eu compro para os afilhados, os vizinhos, e alguns parentes. Vejo a alegria dos olhos deles, mesmo quando o presente é singelo. Isso me deixa imensamente feliz.
Terceiro ato: Hoje ao deixar uns presentes na casa de uma amiga, não esperava que lá estivessem outras crianças. E nem podia levar para todas, mas me chamou a atenção a reação de uma menininha quando eu chegava com uma boneca para a outra, a dona da casa. Ela não entendeu nada. E caiu em um desespero que me cortou o coração. Criança não perdoa. E nem vai entender o que houve ali. Eu sei bem o que é trauma de infância por não ganhar presentes em datas assim.
Ao lado, uma mocinha, com um problema sério de pele e na face, explicava a sua peregrinação pelos postos de saúde e hospitais da cidade em busca de ajuda médica. Sem sucesso (Socorro, alguem arruma um Dermatologista por aí?) E ela tem apenas 15 anos, nenhum documento e órfã de mãe. Com ela, a tia, minha amiga, com três dias de resguardo do quarto filho. Depois de peregrinar por uma laqueadura, a bebê não aguentou e nasceu normal. Ruim para ela que penou nas mãos do médico que a atendeu em um hospital da capital e ainda obrigada a ter cesareana, quando foi proibida por outro médico a ter normal, desde o primeiro filho. E esse era o quarto, sem que ninguém aceite a realizar a laqueadura. Olhamos a criatura e vemos uma mulher humilde, magérrima, andando devagar com o semblante de preocupação e dor.
Quarto ato: Na cama, a menininha que eu queria que fosse minha, dormindo como um anjinho... sem saber da podridão que é o mundo ao redor.
Quinto ato: Em outro lado da cidade, uma outra menininha, com sérios problemas psicológicos agravados pelo abandono e a negligência de pais até certo ponto, "esclarecidos". É triste demais. É absurdo demais. É desumano demais.
Sexto e último ato: E eu ainda vejo canditatos campeões em compra de voto na capital, agradecendo em cartazes a Deus a votação estrondosa na cidade. Deus tenha misericórdia dessas almas sebosas.
E amanhã é dia das crianças.
De que mesmo?
O doutorado vai de vento em polpa, quanto mais leio, mas me apaixono pela palavras e pelas coisas.
Escritura E A Diferenca, A
Filosofia
Derrida, Jacques
|
Quer questionem a escritura literária ou o motivo estruturalista, no campo da crítica, das ciências do homem ou da filosofia, quer apelem por uma leitura configurante a Nietzsche ou a Freud, a Husserl ou a Heidegger, a Artaud, Bataille, Foucault, Jabès ou a, Levinas, os ensaios aqui reunidos têm todos um só centro de insistência: o ponto de articulação |
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Dira
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5:03 PM
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Paul Cézanne, Les Grandes Baigneuses
Tenho códigos por todo o corpo. O mapa que me esconde possui territórios não cobertos. Não traço todos os caminhos para não me perder de todas as idas. Traços voltas e me perco delas. Algumas me partem em duas, outras são como mapas de tesouros. Uma espera e outra desenha pesadelos noturnos. Mas nem sou. Nem me traduzo. Penso no corpo de mar e de brilhos não ditos, é essa linguagem que pinta em mim fios que nunca direi. Na mão uma aquarela que ainda moldarei em sua boca.
(o que o moço levou de mim não me deixa em falta, antes alimenta meus rios sempre tão aflitos por sua fala).
Sou outros planos e uma câmera sempre atenta a olhares silenciosos e cinematográficos. O plano B me alimenta e sara.
Ontem, quando me dei conta, a voz do moço era som em alto relevo na paisagem da estrada. Um sonho em carne e osso e bilheteria. Voltei-me para decifrar e vi-o em holograma, exatamente como me desenhava azul. Barba beirando a boca que eu sonhei, cor de menino-homem ainda guri e uma garota em sacola nos seus braços. Observei a moça, branca, vestido amarelo estampado, sorriso largo, brincadeiras com outra amiga ao seu lado. O que ela preenchia me faltava ao lado dele e ainda assim, cometi o pecado de desejá-lo, como a mais ninguém. O olhar dele era paisagem e o que eu mais desejo não possuía fala e nem inscrições em braile. Ele olhava o nada e eu do nada traçava desejos e vontades. Eu queria imolar aquele momento e emoldurar o seu pensamento no meu corpo como sinais de trânsito. Sinal fechado para essa paixão.
Voltei a dormir as linhas cansadas e percebi que a sua falta é o meu pesadelo de cores e dias. Vivo e morro no pensamento nele. Não era o inconsciente e nem o que não disse que desenhava corpo sem órgãos. Era o amor do moço que me despertava sonhos no meu cansaço diário de outras guerras. Não sou o que digo e nem o que penso, sou o que nego e que me escondo. Há em mim ruas perdidas e guetos malditos. E ainda assim, a imagem dele é campo minado das Bermudas.
Eu tenho rios que transbordam vazios e as linhas imaginárias não ditas serão a herança de gozos e saudades. Naquele moço teci outras marcas de angústias e de prazer. Outros mapas revelam minhas esquinas e em todas sou calçada deserta onde o azul espera a não-promessa. Eu não me escrevo e em todas as cartas sou todas as dúvidas.
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Dira
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5:11 PM
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Da série: cartas que nunca mandamos

O mundo se revira no meu estômago e eu embrulho mal estar sem a tua voz trêmula ao telefone. Conto nos dedos se houve amor maior que o que sentimos. Se é que isso mesmo existiu ou foi um romance que começamos juntos a escrever e desistimos nos últimos capítulos.
Se eu dissesse que te amo, estaria mentindo. Nem é mais amor o que eu sinto. É prisão. Um enclausuramento de freira que desiste de viver e isola-se em uma torre com a certeza absoluta que nenhum cavaleiro em um cavalo branco ousará aproximar-se da torre. Não tenho tranças e nem me chamo Rapunzel. Madalena é a minha sina e sinal de entorpecimento.
Tenho medo do dia que olharei tua imagem e perguntarei se já o amei um dia. Conto os teus passos e morro de medo de esbarrar em tua sombra por ruas dessa cidade hostil e vazia.
Na tua boca escrevi meus desejos e em teu corpo desenvolvi várias teses de encantamento. A televisão nova desligada na sala, as almofadas desarrumadas de nossas brincadeiras e a pia da cozinha com as marcas de nossa fome. Aquele copo em que não bebestes a minha lágrima ainda repousa sobre o medo de tua existência. Eu não me canso de pertencer a ti e às tuas lembranças.
O quarto, ainda por decorar com os teus gemidos, possui uma cor esquisita, nem de longe revela o azul de tua voz e o lilás que te vestia. Guardei as cores para levar comigo até o dia de nossa morte. Morte de esquecimento e platéia vazia. As cenas finais deixaram os personagens aturdidos e todas as falas repousam agora sobre o meu ventre querendo o sopro de vida de tuas páginas.
O meu corpo não conhece outro autor e as minhas linhas permanecem tortas sem a tua poesia.
Ouvi-te calada quando desfizestes as promessas. E a palavra cantada virou aboio entre as minhas pernas. O rio que tecemos juntos ainda permanece abismo e todas as noites jogo garrafas cheias de recados para os teus olhos de sereia.
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Dira
as
9:34 AM
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Descobri que tenho vácuos. Eu, a Madalena de todas as faces, possuo vácuos intermináveis. Percebi isso ontem à noite quando ele me deixou na porta de casa. Foi só atravessar o portão e lá estava eu mergulhada no vácuo até o pescoço. Da janela, olhando para a rua através do portão de madeira, tentei alcançar as margens e contornar espaços.. Não existia lados e nem começo onde o fim se fazia uma enorme parede de vento. Um vento frio. Mordaz. O nada dividindo o espaço com as minhas dúvidas.
Nesses vácuos, tenho o costume de tecer fios invisíveis de solidão. Fios coloridos que apenas eu posso ver. Das cores, costumo tirar lãs e cobrir minhas vestes de forma que eu possa me sentir azul para mim e para ele. O amor é o adorno do vestido longo que teci para ele, de presente. Vestido fruto dos vácuos. Eu prometi vestir na lua cheia. E o farei , um dia. Por hora, espero os vácuos encherem os cântaros para banhar-me à noitinha, quando estiver bem pertinho de vê-lo. Banhos de azul bem piscina. Daqueles azuis que quando batem os raios do sol a água vira espelho. Eu sou no espelho entre o meio e contentamento. Vou tecer fios de azuis em todos os vácuos para compor outras histórias ao entardecer. Ando cansada do silêncio de mãos pelo meu corpo.
Tive que tecer memórias e descarregar de mim o que me pesava e nada dava conta de tantos espaços vazados e lembranças de margens e abismos. Quando me olho do meu próprio alto, sou o que não entendo e ainda assim, me permito.
Hoje descobri-me metades. Uma metade vazada e incompleta cheia de plenitudes e desejos. Os cabelos, ah, sempre os cabelos fazendo volume onde o nada é apenas presença inócua nessa paisagem. De onde venho, nem sempre me acho e quando estou farta, sou como porta que bate no silêncio da noite. Já disse tantas vezes que estou pela fresta da porta...
Em mim, vários fantasmas passeiam dentro de casa, insones. Eu, janelas e pastos de vácuos à espera de sonhos, disputo com eles, a tapas, o meu direito de defesa. Eu teço noites a fio e nunca preencho outros pedaços. O que escrevo, descreve os meus pêlos e o que escondo lateja entre os ombros como uma frase incompleta e impossível. Eu tenho esperas silenciosas que se prostram na minha janela. Abro os olhos, arregalo as vontades e quase sempre, vou dormir com a minha solidão com a pele lacrimejando em dores por tantas ausências.
Ontem não quis decifrar espaços. O vazio instalado no peito tomou conta de toda a casa, instalou-se paisagem e abriu outras fendas em meu peito. Eu tive que tomar um banho, abrir outras comportas e pensar nele para dissipar outros tumultos de ausências.
Nem sempre é assim tão fácil, mas quando sou forte, minha memória me traça de pecados e culpas. Hoje tem uma lua no céu e eu nem aí para conquistá-la.
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Dira
as
10:54 PM
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Diários de Pele
Imagem capturada na net. Clique na imagem.
O meu corpo conhece a tua falta e pressente da ausência da forma mais cruel: me sinto rabiscos de uma história incompleta. Quando as horas tocam o alvo e o dia se espalha no céu da boca, sou toda cabelos ao vento e marcas de pele. Uma ansiedade me corta ao meio e me diz de rimas que tu me fizestes.
- nos dedos que trazes, o caminho que traçou em minha pele. rituais de outros sons que ensaiamos juntos.
Nem era tão tarde assim, ouvi-te chamar ao telefone em uma mensagem: Madalena, minha Madalena, acorde. E a noite, era a madrugada dos meus dias. Uma penumbra de hábitos e a vontade de chover em tua boca, como me ensinastes. Todos os rios correm para as suas mãos e quando me tocas, sou mar de todas as vontades. Quando penso saudade minha pele se descreve com o teu nome.
Sei de todas as culpas e o silêncio subscreve capítulos nocivos a todas as faltas. A paixão me tomou pela mão e nunca mais largou, mesmo quando caminhava sem o oleiro e o meu corpo relata o barro ainda intacto e imperfeito. Eras meu dono e ao mesmo tempo, metade do barro que me esvazia.
Não há esperas quando os pés beiram o novo. Quando nem querias brisa, tomei-te tempestades em minhas mãos. Tomo do teu cálice e de tua boca e mergulho no encantamento, fechando os olhos para te ensinar todas as portas e as brechas entre as idas e voltas. Espio entre as palavras e te traduzo para nunca mais sair de perto de ti.
Dei-te os melhores desejos e colhi de tua boca as mais perfeitas foices. Quando tua voz era surdina, o meu corpo era dor e cortes profundos. E quando a tua espera era o beijo eu disse sim na tarde que nunca volta. Nossas bocas provaram de todos os azuis.
Eu te beijei quando já nem eras e o dia que fomos ficou emoldurado dentro de mim: diplomas de incapacidades latentes.
:: Postado por
Dira
as
11:56 AM
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Imagem: AmandaCom.foto Excelente trabalhos, visite, clique na imagem.
Espelho da sala
Tenho sempre a noção da volta. O corpo quente, as idéias fervendo, ventanias no sol da manhã. Temo sempre a noção do tempo. O dia passado, o beijo não dado e aquela promessa de encantamento fazendo dobra no cair da tarde. Tudo o que eu mais queria era o silêncio do perto e o olhar cansado de outras páginas.
Preciso rever a estrada. Desarrumar velhos mitos e entender que a palavra chave é sempre aquela que não posso reproduzir. O vento encalha a folha seca na porta. Não adianta abrir, encostar o timbre no dia e chamar o nome dele. Algumas palavras são indivisíveis em qualquer compasso. As esperas são espinhos escondidos na pele quase imperceptíveis.
- o que te falta que te agride a alma? em que parte da arrumação da casa perdeste o novelo da volta?
E ainda. Quando todos os contrários repetem a mesma cena. Uma. Duas. Trezentas mil vezes. O mesmo vestido azul, o ano que se repete ano após ano. Todos os fogos que se acedem quando o ano finda, eu acendo uma vela dentro de mim para os mortos que nunca morreram demasiadamente demais para enterrá-los.
Pego a palavra e soletro. Foto antiga, beijo colado na tela. Voz do outro lado que treme. O coração pipocando um compasso meio louco e tímido e a vontade de dizer, me chama, que eu vou.
O dia não pára e os arremedos histéricos da impaciência querem todas as respostas instantaneamente. O que eu guardo é o presente mais caro. Não há devoluções quando a carne arde e pede. E se tudo fosse apenas o holograma da fala? Decorei a geografia de tua pele para poder falar
Quando disseres o nada saberei que o rito é o contrário. E quando a pele soltar brilho, saberei de ti quando o dia acabar à minha volta e o final feliz se desenhar no azul que nos guarda nessa fala que me cabe.
De tudo o que mais possuo é o não lugar e a casa que compomos juntos: tapetes e sonhos espalhados na sala, uma televisão para entender a rua e passos que reescrevem labirintos azuis.
Deixei dormir o filho que não tivemos. E quando ele tiver menino, contarei as suas estórias de Dom Quixote enquanto ele se veste de lilás e quereres. Ensaiarei seus primeiros passos nas marcas dos teus pés no meu próprio corpo e te esperaremos ao anoitecer, o teu amor e tua melodia.
Tenho em mim que todos nos silêncios são orquestras de esperas. E que os dias lá foram expõem dos dentes à mostra como leões que matamos todos os dias.
A saudade tua é esse bicho feroz que mato todos os dias. Resta a palavra-presente embrulhado sobre a penteadeira com o livro que não te dei. E ainda assim, o meu instante é o azul que espera estorinhas de fadas na hora de dormir.
:: Postado por
Dira
as
5:51 PM
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Miguel, mandou, eu obedeço
Há uma brincadeira rolando, Miguel mandou, então eu obedeço e respondo também.
Descreva-se
Sou uma mulher que ainda não cresceu, mesmo que o tempo e a vida tenham se encarregado de marcar o rosto e o corpo. Não tive infância, muito menos adolescência. Mas não me ressinto disso. Tive que ser adulta aos sete anos e quando alcancei a idade adulta, descobri que estava entrando na adolescência. Gosto de estudar, gosto de ensinar, gosto de ser eu mesma, mas isso quase sempre nem é possível por viver em um mundo cheio de regras e de valores que nos encaixam dentro de prateleiras com rótulos que muitas vezes nem cabem na gente. Eu não me adequo a rótulos nenhum, eu não tenho ódio, nem invejas, nem raiva, mesmo que me ire algumas vezes. Creio em Deus. Tenho uma sensibilidade cristã que me faz chorar e pular de alegria na presença de Deus. Eu sou Dele e Ele é meu. É o meu melhor amigo, é o meu marido, é meu irmão: Deus é tudo e todos as minhas perguntas e voltas. Todos os dias reconheço em mim uma outra pessoa e me reconstruo nela e me refaço todos os dias para não ser nunca igual a ontem.
O que as pessoas acham de você?
Como vou saber? Pouco sei de mim. Sou metade do que pensam que sou. Mas não me importo muito com isso.
Descreva o atual relacionamento
Um bonito sonho, a esperança da confiança, da sintonia, da companhia à solidão, ainda que seja apenas um desejo.
Descreva a ultima relação
21 anos. Dois filhos perfeitos. Um grande aprendizado, afetividade, amizade. Eu cresci apesar de ainda ser menina. Eu cresci e deixei de brincar de bonecas.
Onde queria estar agora?
Numa praia. Rede na varanda. Alguém interessante na cozinha preparando o almoço. (ora, quero ser rainha por um dia).
O que você pensa sobre o amor?
Ainda é o equilíbrio que sustenta o mundo em fios invisíveis. O amor pra mim é Deus.
Como é a sua vida?
De muita luta e muitos fios invisíveis conduzindo os meus passos. Eu amo. O tempo todo e tudo o que faço.
Se tivesse direito a apenas um desejo...
Não posso ser Deus. Não pediria o que já está determinado. Não posso acabar com a fome no mundo. Nem posso endireitar os caminhos tortos dos homens. Mas é só um desejo? E quem o me daria? Se fosse concedido por Deus, eu desejaria o fim do tráfico de drogas.
Uma frase sábia
“Suportai-vos em amor”. Frase Bíblica.
Uma frase para os próximos
Conheça Deus além do que se diz por aí.
Indicações;
Cherry(Cerejinha), Loba (BH), César (Avesso)
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Dira
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Dos mil desejos, apenas um.
Se chamar o seu nome a minha pele responde entre as marcas das tantas algemas dispostas nas portas das minhas saídas e do tempo que faz questão de anotar dia a dia as dores que nos causa ao longo da vida. Não é possível desvencilhar das margens e eu me disfarço muito bem das minhas faltas. Sou intérprete de minha solidão e nunca desafino quando em frente ao que mais temo. Não abro todas as portas para não me soltar eu pássaros. Em mim as falas resultam desejos. E os desejos são reservas das invernadas que atravesso sozinha. Desejo da casa, da caça e da pesca. Desejo de gozo e de descanso. Desejo de soltar a língua e o verbo e ser livre colada à boca dele sempre tão convidativa e insegura.
(tantos desejos traçam caminhos difícieis de cumprir-se: em mim todos os dias acordam manadas correndo em desespero, fugindo do tempo, pulando as cercas, correndo além de pastos. bichos de todos os tamanhos e cores combinam entre si dilatando minhas ilhas. eu tenho todas as faltas do mundo e todas elas descrevem apenas um nome).
Imaginei que recuperaria o fôlego longe do toque, mas as senhas e as palavras que abrem espaços eram todas nativas daquele olhar. Menino safado que me tecia silêncios e taras mas nunca promessas. Dificilmente sobreviveria àquele abraço bom de reencontro. Tantas vezes tentando fugir e milhões de vezes desejando aqueles braços. Eu me reconstruo todos os dias. E todas as noites, desfaço-me retornando sempre ao pó para acordar outras manadas no dia seguinte.
Todos os dias reescrevo o meu próprio nome em vários tons para nunca ser a mesma, conservando a essência de fênix. Sou eu mesma e todos. E quase sempre, sou eu mesma de um lado e outro do tabuleiro. Cheque-mate de mim e de meus conflitos.
Quando minha pele soletra o nome dele, nem importa se ele responderá ou não. Se me tocar, sou toda braile e se sorri, o óbvio é a minha falha, o ponto
Sei da promiscuidade dessas margens e dos atalhos que decifro sem querer. Fazer o que se tudo em mim é trilha em matas fechadas? O meu corpo acostumado à companhia da lua, entende bem que esperas se tecem com fantasias. É preciso tecer o sol todas as manhãs para inaugurar algumas melodias e noites de luas cheias.
Sem a minha própria pele, nem o nome dele eu decifraria.
O melhor dele é o meu pensamento nele. Mata virgem. Palavras guias. Mentiras que ele não disse e aquela boca sempre tão perto longe de mim. E sei dos atalhos e quase sempre recuso parábolas. Pressinto as claras e prefiro chamar o seu nome, como quem resiste ao encantamento das sereias. Finjo que estou dormindo para que o ontem não me assombre e eu ainda imagine que estou à sua mercê, tapete por onde ele pisa e massageia com botas de cano alto.
Quando me toca, ativa as defesas, acende os faróis, põe vigia em minhas torres. Eu sou a menina dele, esperando o colo e os perigos do sim. Nunca mais me dispus a enfrentar o os riscos. Os cabelos em concha me prendem a outros armários e eu o espero, silêncio (mas nunca cativa), como ladrão no meio da noite a encantar com a palavra mãe que põe panos quentes em minha nuca e me despe de esperas de multidões. Sim, eu tenho todos os desejos repletos e nenhum à mão da sensatez.
Fazer o que? Madalena é assim. Não me estranhe. Sinto desejos quase insuportáveis de conter. Resisto à mão dele, apenas quando farta de muitas luas. Mas quando deserto, as suas mãos abrem em mim outros atalhos. Ele conhece todas as chaves e se atrapalha na hora de abrir.
(não levanto bandeiras, não grito palavras de ordem. Minha política é desejo e a minha fala, minha questão de pele).
Sou sempre porta, deixo ferrolhos invisíveis para casos de guerra, apesar da língua presa e da alma que responde pelo desejo. Apenas um desejo entre tantos mil que responde pelo seu nome.
Dira Vieira
P.S. Resultado da primeira aula de Seminários Avançados II (Doutorado em Sociologia - UFPB) do Professor e mágico das palavras: Adriano de Léon e Prof. Artur Perrusi. Impossível sair de uma de suas aulas sem ter a cabeça fervilhando de idéias e questionamentos. Adriano nos dá o roteiro mas sempre torce para que sigamos outros.
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Dira
as
9:51 AM
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Tempo de frio
Fiquei lhe devendo uma carta, um choro, uma despedida, sei lá. Ontem pensei, ao ler um bilhete seu que não nos despedimos. A rota de sua boca quase encostou na minha e eu bem que silenciei o mundo ao redor para receber os seus lábios. Não houve volta e nem ida. O silêncio foi mais duro que cortar os pulsos ou jogar-se de uma ponte. Eu bem que me avisei, não entra nessa Madalena, não entra. Mas como sou teimosa, traço os meus motivos, especulo minhas trilhas como quem caminha lentamente e com muita fome para o matadouro. Eu bem que adoro arriscar a pele, quem sabe eu não me dou bem e acho o pote de ouro no fim do arco-íris?
Dizem que a poesia existe. Eu até tentei acreditar nisso naqueles dias. O homem me esperava aflito; a minha pele pedia a sua, o corpo, a alma, as palavras se demoravam no camarim preparando a melhor fala para dizer o que sabes decorado. Tinha o vocabulário da paixão como um rosário meticulosamente guardado dentro de mim. E eu beata de suas horas marcadas e aparições no meio do dia corrido.
Quando o dia amanhecia eu já me imaginava sua, poema partido, trabalhado em uma página colorida por onde me tocavas. E como me tocava bem ... Sua língua tinha uma sinfonia especial, eu esperava acordá-lo em mim para que me tecesses o dia e o quanto me esperou a vida inteira.
Não tivemos tempo de tecer angústias. Ao seu lado, em distância segura, eu tecia outras paisagens rupestres, desenhos que fazíamos na voz e nas promessas de acasalamento. Eu fui sua, mesmo quando não era presente naquela folha de papel desenhada no meu corpo. Todos os dias me recompunha as folhas e me fazia florescer em seus dedos. Cada frase, cada promessa, cada verso era balada de mascar mentiras.
Eu sempre fui nossa. Mesmo quando nem nos despedimos e eu sabia que nunca mais ouviria a sua voz me chamar pelo nome. Decorei suas falas, suas rimas e o seu cheiro e nunca mais viram Madalena bailar a meia noite. Decorei seus pedidos de socorro, suas angústias, sua solidão sempre tão impossível de compor. Decorei o seu sorriso e seus pêlos. Desconstruo em mim, dia após dia, o desejo e a vontade do dia findo a repousar no seu colo o meu cansaço.
Sou sempre idas, peito aberto a outras quedas mas nunca me desfaço do mote de esperá-lo na rua. Novas cenas abrem outros abismos e ainda assim, ofereço os pulsos à palmatória, ainda que o nada aconteça e os espasmos seja mesmo da minguante fala que nunca quis mais que as margens aos sacrifícios de coragem.
Se é que me sabes, hoje é um tempo de frio, de recolher-se às cavernas e de curva-se longe das tempestades. Um tempo hábil de dar adeus e querer. Um tempo de pensar em você e ensaiar desculpas para essa despedida. Quem sabe assim arrisco outras curvas?
Madalena
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Dira
as
1:31 AM
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Solidão de esfinge
tenho a sensação de um silêncio em preto e branco que sensibiliza os meus dedos. doi tudo em mim como se a falta dele de repente viesse à tona em alguns poucos minutos em que vi a sua silhueta passar por mim. era ele mesmo ou o meu desejo tomando contornos de alma e vindo assombrar quando a noite entra na segunda parte da madrugada? nem me dei conta que alguns anos passaram rápido demais. dos filhos que não tivemos um se chama azul e a outra, pequenina e com a cara dele, tem a poesia e a fala mansa dos vermelhos que acendemos. temos dois filhos que nunca existirão e ainda assim me sinto órfã da falta de esperança de sobreviver à solidão. faz frio nesse corredor de ônibus no meio dessa noite e campina grande abre as portas para o inverno de palavras.
era azul celeste mesmo aquele vestido que ele me deu?
sinto que perdi algumas cenas desse velório. não chorei todas as lágrimas, não enterrei todos os mortos, nem ousei missas de sétimos ou outros dias. eis-me ainda aqui, na rua, cabelos em lilás e a frase solta que nunca mais conseguiu outras rimas. o rosto dele e a barba por fazer fazem cosquinhas em minha memória e lá vamos nós sozinhos novamente para o século passado em eras medievais... sinto-me só como a esfinge plantada na sala de minhas angústias.
Madalena
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Dira
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Banho
(Rural)
Zila Mamede
De cabaça na mão, céu nos cabelos
à tarde era que a moça desertava
dos arenzés de alcova. Caminhando
um passo brando pelas roças ia
nas vingas nem tocando; reesmagava
na areia os próprios passos, tinha o rio
com margens engolidas por tabocas,
feito mais de abandono que de estrada
e muito mais de estrada que de rio
onde em cacimba e lodo se assentava
água salobre rasa. Salitroso
era o também caminho da cacimba
e mais: o salitroso era deserto.
A moça ali perdia-se, afundava-se
enchendo o vasilhame, aventurava
por longo capinzal, cantarolando;
desfibrava os cabelos, a rodilha
e seus vestidos, presos nos tapumes
velando vales, curvas e ravinas
(a rosa de seu ventre, sóis no busto)
libertas nesse banho vesperal.
Moldava-se em sabão, estremecida,
cada vez que dos ombros escorrendo
o frio d'água era carícia antiga.
Secava-se no vento, recolhia
só noite e essências, mansa carregando-as
na morna geografia de seu corpo.
Depois, voltava lentamente os rastos
em deriva à cacimba, se encontrava
nas águas: infinita, liqüefeita.
Então era a moça regressava
tendo nos olhos cânticos e aromas
apreendidos no entardecer rural.
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Dira
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Dira
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7:51 PM
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Olhando para trás
Não localizei o autor dessa foto, quem souber, por favor, preciso dos créditos.
Madalena é resolvida. Na cabeça, atitudes, no que quer da vida. Resolve as situações como quem arruma o leque sobre os ombros e sorri para a câmara. Debulha as palavras com maestria e ri de si mesma quando se imagina uma atriz. A atriz que esconde em si a menina que nunca deixou de ser.
E estava ali... Diante dele. Resolvida? Nem tanto. As mãos, suando, o olhar desviando, as imagens de um tempo ontem bailando na sua cabeça. Queria aquela boca... E queria de novo a vida que ele injetava naquele encontro casual. Não programara nada e se tivesse feito, talvez não tivesse sido tão bom. Tantas coisas a contar... Tantas. O pensamento dela criava o palco, mesmo que fosse para um monólogo secular. Estava acostumada a desejos de mão única, mas quem poderia decifrar o poema que se erguia entre as suas lembranças? Madalena deslizava suores frios e tremia com o gelo da sala. Não gelava dentro dela... Sentia sim pontadas na carne de um sentimento que não conseguia decifrar. Seria justo sentir tudo aquilo, tantos anos depois? Não poderia responder e mesmo que tentasse, não aceitava o papel da menina boazinha e compreensiva que lhe nomearam a vida toda. Ali era apenas a Madalena afoita de sentimentos fortes e desejos nada comportados.
Uma atriz. Tinha que conter as vontades sufocando a pele e as mãos que desejavam aquele rosto. A imagem era a mesma de tanto tempo... O menino doce de mãos ágeis, e o ventre de Madalena ávida dos filhos que compuseram juntos. Sinfonia tardia. Gozo protelado a um tempo que não foi possível encenar juntos. Parecia um sonho. Teria direito àquela reprise?
Se fechasse os olhos, enquanto o moço se movimentava em outros mundos à sua frente, poderia (e tinha o poder de) tocar a alma dele. O moço ainda usava as calças apertadas que mostravam o peso das pernas e um caminhar que traduzia a saudade grande que ela encenava diante dos olhos. Lembrava o jeans surrado de outros tempos e o sonho de vencer o mundo, a partir do nada que tinha nas mãos. Não queria sair dali. Nunca mais. Teria que se acostumar àquele olhar pequeno do homem que subiu às nuvens, mas continuava o megalomaníaco adoravelmente insuportável. Ele podia tudo. E era dor saber que sim. Madalena sabia bem.
Inquieta, tentava a melhor posição sobre as nuvens. Não poderia ser diferente. Cada passo que ele dava sua cabeça de menina rodopiava. Não poderia levantar naquele momento com a sensação de que cairia a qualquer momento. Mesmo que tudo aquilo não passasse de uma ilusão da adolescente que acalentou por tantos anos.
Quando finalmente levantou para ir embora, todo o seu corpo disse não. Madalena lutava dentro de suas cavernas para continuar fiel a si mesma. Fiel a tudo o que se negara por tanto tempo. Precisava ir. Precisava olhar para frente numa releitura de possibilidades e realidades. Mas como poderia se e ele ainda a olhava com a mesma poesia?
Quando ele sentou no sofá, insinuando mais tempo de conversa, Madalena fingiu pressa para resistir a proximidade e intimidade que se anunciava tardia naquelas mãos tão próximas de si. Capaz de trair-se se sentasse ali, pertinho da boca que lhe dizia saudades e dores. Apertou as mãos, soluçou o tempo gasto e finalmente acordou daquele momento quando a calçada era a fuga perfeita para a realidade.
Corre, Madalena, corre. Faz um verso, pinta um poema, qualquer curva é melhor para todos os segredos. Corre, Madalena, corre e salva a tua própria pele, ao menos uma vez na vida.
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Dira
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11:18 AM
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Deitada

Fotografia de Graça Loureiro retirada daqui
O dia se levanta sobre sua pele como uma cobra que se revira enquanto digere o último alimento. O corpo não responde e o burburinho da manhã lá fora bate na janela como pedras jogadas contra a vidraça. O coração demora a acordar as páginas deletadas do tempo que urge na calçada do ontem. Mas nada disso importa a Miguel que se debruça na varanda para ver o dia acordar.
A palavra, língua solta e úmida, conta dos segredos da noite anterior. O vinho, a meia luz, a gargalhada solta da moça (o cenário perfeito para o encantamento), entoavam o som ambiente para o encontro perfeito. Sem rimas, o verso só quebrava quando a última barreira, onda quebrando na praia, esbarrava no céu daquela boca ainda úmida de tanto repetir o nome dele. Ah, Madalena, Madalena, que delírios esconde essa mulher na qual a ausência de todas as culpas a levam para o sim, sempre que o dia se levanta em seu querer.
Debruçado sobre a varanda a esperar a noite, deixa transparecer outro mundo além do balcão da recepção. Citou-a como namorada e depois ficou pensando realmente o que ela seria naquele momento em que todos os seus ossos, células, medula, fios de cabelo, eram de Madalena e apenas dela. Corpo moreno que compunha a cena daquele quarto, onde, na noite anterior, estreara o seu melhor disfarce sobre ela. Não conseguia ser o seu dono, nem ele mesmo pertencia a si ao lado dela. Madalena era livre. E ao seu lado era apenas a materialização dos desejos dela. Madalena era a senhora de todo aquele momento, ambiente, sonhos dele. Os sonhos de Miguel vestiam uma camisola vermelha curtíssima de renda e uma boca que sorria enquanto dormia.
Voltou para dentro do quarto. Viu-a dormindo mas não como um anjo. Além disso. Madalena era a extensão das suas mãos que tateavam nela a esperança dele mesmo existir. E se ela fosse um holograma, Miguel, o homem da varanda, seria também uma ilusão da palavra marfim?
Sentou-se ao lado da cama. Pegou o violão pois sabia que ela gostava de vê-lo tocar. Viu-a chorar na madrugada e ficou em silêncio para não entrar de sapatos em sua vida. Por muitas horas, evitando magoá-la, ou invadi-la, desejou sua boca em silêncio, desenhou seus lábios com os olhos e não ousou roubar-lhe beijos. Antes assim fosse. Um ladrão. Bandido impiedoso que invade o corpo alheio sem pedir licença e deixa a vítima violada e apaixonada. Mas ele não era assim. E talvez faltasse um pedaço por não ser comum a todas as eras. Miguel era único como Madalena alí, deitada naquela cama, como se a manhã não tivesse poder para acordá-la, nem senha para abrir o que ela tão bem escondia. Quem era essa moça que dormia como uma ninfa naquela cama? >
Miguel tocou a canção dela. Não seguia nenhum código, nenhum ritual, nenhum manual. Ele seguia a si mesmo e àquele ímpeto de vê-la acordar suavemente sobre a cama macia. Tocava o violão com tanto respeito que as notas musicais eram como um coro de muitas águas. Seu corpo todo era cachoeira descendo despenhadeiro.
Sua namorada. Pensou e rejeitou a possessividade no mesmo tempo. Não. Madalena era dela. E ele nem a si pertencia. Ela era a namorada dos dias dele. Constrangimento na hora em que o recepcionista perguntou quem era a moça que entrava com ele. O rapaz apenas queria saber o seu nome para o registro obrigatório e Miguel entendeu outra coisa. Não sabia responder. Quando ela entrou no saguão do hotel, todos pararam para vê-la passar. Não era bonita. Ou não tão bonita para isso. Mas Madalena chamava a atenção pela sua sensualidade e meiguice. Era ao mesmo tempo uma mulher e uma menina. As mãos pequeninas, o corpo quase perfeito. Era na sua imperfeição. Miguel se deslocava quilômetros para vê-la, anualmente. Qualquer sacrifício seria pequeno para ouví-la rir, contar o seu dia, dar gargalhadas já "altinha" por três taças de vinho.
Miguel a queria mas não sabia exatamente como isso seria. Nem poderia, Madalena está acima de todas as leis. Aprendera a vida toda a exercer o poder sobre os outros (e a deixar-se dominar por pessoas, sentimentos e situações) ou sobre tudo o que tinha. Com ela aprendera outros tons, outros verbos e algumas palavras perderam o sentido quando finalmente tocou aqueles lábios arredondados que sempre desejou. O beijo daquela moça o suspendia do chão. O toque da língua, o cheiro, as mãos por dentro do cabelo e a entrega que a tornava promessas e desafios.
Madalena lhe ensinava todos os dias a reverter a ordem das coisas e a fazer poesia concreta quando as suas mãos contornava os sonhos dele acariciando o seu ego e injetando vida em suas veias. Naquele momento, deixava que ela se fizesse cenário para a melodia que sussurrava para despertá-la. Miguel era ridículo apaixonado e nem fazia questão de não demonstrar. O amor daquela moça lhe vestia de sonhos e adornava as manhãs em que fugia do mundo para vê-la naquele quarto de hotel.
De qualquer maneira queria ser ali, aquele momento, ao lado e dentro dela porque era apenas assim que se traduzia.
Para os homens sensíveis que quando amam, se desprendem das dores do mundo. Dentre os que conheço e amo: Miguel, Luis, Nélio, Paulo Sérgio, Zeca, Isaque, Marco, César (aldeias).
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Dira
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Na arena

Imagem: O fantasma da Ópera
Alguns pedaços em Madalena são como gomos de uma laranja, o suco escorre como se o mundo fosse um espremedor agressivo e impiedoso. E é. Ela deixa escorrer o medo e desfaz-se em voltas que as rimas soletram em sua cabeça – há ventos no céu da boca quase insuportáveis de administrar, ela comanda os próprios furacões e nada posso fazer daqui de fora, já que todas as suas falas pronunciam o nome dele. Anda sozinha, sorri sozinha e as vezes até enclausura-se em multidões de si: cada passo é em falso e um abismo completa o outro em prosa. Conta estórias que não quer esquecer. Não pode reativar os laços porque na verdade, tudo nela é o contrário, deslizantes desejos. Inspira-se na falta como se a palavra dele fosse cântaro onde ela bebe, diariamente e em silêncio mortal. Não quer que ele saiba que é sua sombra, gosta do silêncio e do moço quando a saudade é poesia concreta ardendo suavemente na boca.
Madalena cansa das escolhas que faz e mete o verbo no chão com medo do que é possível, como se isso fosse restos de idéias e relatos de suas paixões. Todas as palavras se ressentem da inspiração que só ele lhe sussurra. (E quando voava ao lado dele, nunca a inspiração foi tão farta e a alma tão leve nas promessas dos beijos futuros). E se não fosse aquela música, poderia ser algodão doce na paisagem?
Ela finge que nem lembra, mas cada vez que olha, o atrás é reflexo e pesadelo. A boca dele em concha é o alimento tátil e a sua prestação mais sofrida. Não pode pagar sozinha por todas as culpas. Eu sei. Mas ele não sabe. Quando o amor resseca na boca, é necessário antibióticos miraculosos para sarar ausências. Não sei como sobreviveu sem estrelas até agora. Ela é forte.
Quando caminha, a volta é o frio e todas as portas traduzem gritos. Quem é ela para compor o intervalo e pedir que ele olhe o ontem? O que sente já nem faz eco, e o que soletra já não escreve o nome dele porque esqueceu suas vogais. Uma lacuna e um verso não escrito, milhas e milhas de rimas que tentou compor e era cara aquela falta. Ele é prosa quando se mostra poesia nos olhos que brilham e sorri no momento exato do quando. Mas Madalena não separa a prosa da poesia porque nela, tudo é prazer sem forma.
Há curvas no tempo e todas as vezes que tenta, o soneto é tempo no verbo passado, que bem podia ser perfeito.
(Uma roda de amigos, conversas ao vento, o pensamento nela, e o moço sentado na frente da televisão compunha uma novela que nunca teria final, muito menos feliz. Esqueceu que não sabia inglês, e o The End ficou sem eco, pixado no muro em frente ao impossível).
Madalena se ressente do que não viveu e a sua alma soletra a poesia rota que o tempo atropelou e marcou a carne viva.
Toda vez que canta pensa no ontem. E cada vez que grita, as paredes de sua pele reeditam o dia em que, o que não volta, fez sombra em uma eternidade. Nunca esquecerá que no abraço descobriu outros mundos e outras paisagens invisíveis. E isso será imputado em sua culpa para o sempre. E o presente dado, não pode ser devolvido, porque já pertence ao cenário de um espetáculo sem estréia. Vive os fantasmas e o personagem principal que não rende bilheteria e nem fama.
Repete as cenas, reescreve diálogos, relê o passado: toda a falha é síntese que não consegue reemprimir daquelas páginas arrancadas bruscamente. O livro é antigo, e a história sempre começa pelo fim sem direito a reprise de inconseqüências. Ainda bem que o beijo quando nunca, repete-se no final. E o dia ditava a hora em que podia dizer eu te amo com a voz entrecortada pela dor do longe.
Madalena tem sonhos em vantagem e toda intenção é o receituário de escolhas. Sabe o que faz todas as vezes que volta. E a essa despedida arranha na pele como viagem sem fim – o bilhete é só de ida e o destino, incerto.
Em todos os dias em que não se desenha na fita, Madalena é angústias de uma alegria passada. Não se pode condenar o tempo por promessas não pagas.
E se ainda tiver fôlego poderá refazer-se palco e brilhar o neon de seu desejo. Haverá sempre outra platéia e um autor em busca de falas.
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Dira
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12:22 PM
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Faminta
Madalena tem fomes quase maiores que ela. Quando caminha, metade dessas fomes caminha a passos largos atravessando as suas pernas e falando alto como se quisesse duvidar dela. Não sei se tenho pena, ou se eu também queria a sua fome diária de querer o amor a roçar os meus cabelos e tocar a minha boca enquanto me arruma numa poltrona de viagem ao lado dela.
Ontem me falou dessa fome que não consegue controlar e nem denominar, como se pudesse enfileirar, emprateleirar, ou coisa semelhante, as suas vontades. As suas necessidades de amor, chegam a doer no estômago e ela se parte em duas quando está
Enquanto viajávamos ontem me contou do moço, e do outro e do outro. Dos sonhos e das apostas que fazia quase sempre para perder. Ela não se importa com isso. Paga o preço, como eu disse, paga com a dor de talvez não acertar o alvo e cair de cansaço.
Dessas fomes, que por vezes a derruba na cama e a faz comer chocolate por horas a fio, sei que caminha para o pior. O pior de quem tece castelos de areia e de vento. Menina sozinha. Enquanto ele dormia, Madalena o olhava faminta, com os olhos cheios de lágrimas, imaginando que talvez aquele momento fosse o último. Nem se desse a sua alma, alcançaria o outro que de tão alheio, nem perceberia que ela chorava quando vestiu a roupa e insinuou ir embora. Não queria ir, claro que não. Talvez o mínimo que esperasse era que ele disse não, não vá e ela fingiria resistência mas por fim, deitasse ao lado daquele corpo, que era apenas o corpo mais especial que já tocara. Mas era só isso. E Madalena tem fomes demais para contentar-se com o corpo, o suor e a alegria do prazer no durante.
Queria o que estava por trás, atrás da porta, debaixo do travesseiro, por baixo das cobertas, do edredom. Queria a palavra não dita e talvez a dor de partir sem ouvir o que dizia por tantas vezes e o tempo todo. Eu te amo. Madalena gostava de repetir na intenção de que o outro aprendesse e sussurrasse para ela. Sim, ela amava, mas a fome que tinha, pouquíssimas pessoas a saciaria.
Enquanto me contava, percebi que chorava e massageava a barriga mostrando onde a fome se instalara. Fome de tudo, de olhos, de bocas, de palavras, principalmente palavras que dissessem a ela mais do que ela pretendia ouvir. O mundo inteiro é pouco para a fome de Madalena que se instala além do ventre e vai muito mais fundo do que qualquer raio x possa expor. Quando ama, costuma abrir as comportas e como as chuvas são temporãs, não há represa que a comporte e nem tão pouco, mãos que se adaptem à sua boca, saciando a sede e a fome de todas as ausências. E mesmo assim, me admiro de encontra-la sempre terra fértil e preparada para gerar todos os frutos de que necessita.
Quando o moço dorme e sonha, Madalena derrama rios e deseja margens, corpo aberto na expressão de quem espera. Mas que o desejo, mas que energia, o que está invisível talvez à cena anterior ao toque de midas. Madalena é mata fechada, vontade selvagem de quem viverá seus silêncios e noites sem lua. Nas clareiras que abre em si mesma, Madalena é foco, fogo predador e fêmea e não há quem possa com isso.
Dira Vieira
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Dira
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4:38 PM
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Hora marcada
Reinventei os dias quando o tive entre as mãos: poesia a cumprir-se como profecia. Hei de te amar enquanto o sopro me doer nas narinas e quando o tarde se fizer hoje nas noites em que fechamos os olhos para suspirar. Sim, eu reinventei a poesia no cheiro, no hálito e na sintonia de ouvir a tua voz, melodiosa canção de ninar enquanto eu sussurrava milhões de vezes o teu nome para acreditar.
Hei de te amar, quando o sono não vem e o relógio avisa do dia amanhecendo como um enfado e nenhuma vontade de levantar. Se o tempo se fecha, se o riso é um choro abafado e se os teus olhinhos me pedem alegria quando eu sei que aquele tempo é o que me desenhas instantes sem promessa, sem registros fotográficos, sem nenhuma marca de descontentamento.
Hei de descobrir a porta para o ontem e o verso contorcionista que segura os dias e revela-se no momento do deixar partir. Deixa eu ir, deixa. Ensina para os filhos, que nunca terei contigo, o quanto de nós que era vidro e nunca quebrou nas tempestades de silêncio. Conta para eles, que nunca virão, que o teu pelo era a minha pele e a tua boca, o mapa dos meus encontros e bússola de perdição. Conta-lhes do teu desejo de como soletramos pesadelos, bocas, dedos, camisola de dormir e o teu pijama de bolinhas que eu vesti sem sentir. Conta tudo. Conta. E não me deixas mentir. Conta de quantas vezes, para fugir, vestimos os avessos e em contrário e nos confundimos entre as nossas pernas quando éramos apenas vontade e fome de nunca existir.
Enquanto isso derrama em mim essa saudade, o suor descendo pelo teu rosto, cascata de desejos alimentando minha boca. Do que nunca perdi por não guardar como marca em um anel que brilha no escuro trago os traços do teu corpo, caminho de ilhas e parágrafos, tempo final de todas as lutas.
Já é tarde. E enquanto arrumo as malas, desembaraço o cabelo acostumado aos teus dedos, me alimento da devoção com que me olhas, saudade e pedido de não vá e eu fecho os olhos para acordar mais viva dessa angústia que é dizer adeus quando a tua boca me morde o céu da boca e eu agradeço a Deus o sopro da vida.
És a tatuagem mais perfeita e que me descola assim, de mim, quando em todas as fases me fazes lua ao teu bel prazer e majestade. E eu, a rainha confusa, letras formando nuvens no azul céu enquanto esquadrinhas e prendes a minha alma na tua canção.
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Dira
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7:13 PM
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